{"id":8677,"date":"2026-09-07T16:47:05","date_gmt":"2026-09-07T19:47:05","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalsaopaulonews.com.br\/?p=8677"},"modified":"2026-09-07T15:16:29","modified_gmt":"2026-09-07T18:16:29","slug":"setembro-amarelo-ganha-novo-significado-com-a-nr-1-saude-mental-precisa-sair-do-discurso-e-entrar-na-cultura-das-empresas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornalsaopaulonews.com.br\/en\/setembro-amarelo-ganha-novo-significado-com-a-nr-1-saude-mental-precisa-sair-do-discurso-e-entrar-na-cultura-das-empresas\/","title":{"rendered":"Setembro Amarelo ganha novo significado com a NR-1: sa\u00fade mental precisa sair do discurso e entrar na cultura das empresas"},"content":{"rendered":"<p>Especialista defende que falar sobre sa\u00fade mental nas empresas exige olhar al\u00e9m do indiv\u00edduo e questionar que tipo de ambiente, cultura e lideran\u00e7a as organiza\u00e7\u00f5es est\u00e3o construindo.<\/p>\n<p>Vagner Rocha, psic\u00f3logo, mentor de carreira e especialista em desenvolvimento humano<\/p>\n<p>O Setembro Amarelo chega, em 2026, em um momento particularmente importante para as empresas brasileiras. A nova NR-1, que passou a incluir os riscos psicossociais relacionados ao trabalho no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais e entrou em vigor em 26 de maio de 2026, traz um novo desafio para as empresas: transformar a preocupa\u00e7\u00e3o com sa\u00fade mental em pr\u00e1ticas efetivas de gest\u00e3o.<\/p>\n<p>Segundo o levantamento, realizado pela Heach Recursos Humanos com 1.730 empresas brasileiras, 68% das organiza\u00e7\u00f5es declararam n\u00e3o entender o que muda com a atualiza\u00e7\u00e3o da NR-1, enquanto 62% dizem ainda n\u00e3o possu\u00edrem indicadores formais para identificar e monitorar riscos psicossociais.<\/p>\n<p>Para C, os n\u00fameros ajudam a mostrar por que o tema precisa ultrapassar as campanhas pontuais. A discuss\u00e3o sobre sa\u00fade mental deve chegar \u00e0 rotina das organiza\u00e7\u00f5es, envolvendo lideran\u00e7a, comunica\u00e7\u00e3o, press\u00e3o por resultados, rela\u00e7\u00f5es profissionais, seguran\u00e7a psicol\u00f3gica e a pr\u00f3pria forma como o trabalho \u00e9 organizado.<\/p>\n<p>A mudan\u00e7a na NR1 aproxima ainda mais dois debates que durante muito tempo foram tratados separadamente pelas organiza\u00e7\u00f5es: sa\u00fade mental e gest\u00e3o do ambiente de trabalho.<\/p>\n<p>\u00c9 justamente nesse ponto que o psic\u00f3logo, mentor de carreira e especialista em desenvolvimento humano, com mais de 20 anos de experi\u00eancia em Recursos Humanos, prop\u00f5e uma reflex\u00e3o para o Setembro Amarelo: de que adianta falar sobre sa\u00fade mental durante um m\u00eas se a cultura da empresa n\u00e3o contribui para preserv\u00e1-la nos outros onze?<\/p>\n<p>Para o especialista, muitas organiza\u00e7\u00f5es avan\u00e7aram no discurso sobre sa\u00fade mental, mas ainda existe uma dist\u00e2ncia significativa entre aquilo que as empresas dizem valorizar e aquilo que os profissionais vivenciam diariamente.<\/p>\n<p>\u201cAo longo da minha carreira, passei por empresas onde miss\u00e3o, vis\u00e3o, valores, cultura e c\u00f3digo de \u00e9tica e conduta eram amplamente divulgados e discutidos com colaboradores e lideran\u00e7as. O problema \u00e9 que, muitas vezes, existe uma dist\u00e2ncia enorme entre aquilo que est\u00e1 escrito e aquilo que acontece na pr\u00e1tica\u201d, diz Vagner.<\/p>\n<p>A discuss\u00e3o ganha ainda mais relev\u00e2ncia porque a nova NR-1 n\u00e3o trata os riscos psicossociais apenas como uma quest\u00e3o individual. A norma os insere no gerenciamento de riscos ocupacionais, o que exige das organiza\u00e7\u00f5es uma abordagem preventiva sobre as condi\u00e7\u00f5es de trabalho.<\/p>\n<p>Na avalia\u00e7\u00e3o de Vagner, isso pode representar uma oportunidade para as empresas deixarem de tratar sa\u00fade mental apenas por meio de campanhas, palestras ou benef\u00edcios pontuais e come\u00e7arem a olhar para a pr\u00f3pria cultura organizacional.<\/p>\n<p>A pergunta principal n\u00e3o deveria ser apenas \u201ccomo est\u00e1 a sa\u00fade mental dos nossos colaboradores?\u201d, mas tamb\u00e9m \u201cque ambiente estamos criando para que essas pessoas possam trabalhar, se desenvolver e se sentir bem?\u201d. Afinal, sa\u00fade mental n\u00e3o \u00e9 apenas uma quest\u00e3o individual: ela tamb\u00e9m revela muito sobre a cultura, a lideran\u00e7a e as condi\u00e7\u00f5es de trabalho que uma organiza\u00e7\u00e3o oferece.<\/p>\n<p>Nesse contexto, entram fatores como excesso de cobran\u00e7a, jornadas insustent\u00e1veis, medo de falar sobre problemas, falta de di\u00e1logo, ass\u00e9dio e lideran\u00e7as despreparadas para lidar com pessoas.<\/p>\n<p>O papel das lideran\u00e7as \u00e9 central<\/p>\n<p>Para Vagner, um dos principais pontos de aten\u00e7\u00e3o est\u00e1 na prepara\u00e7\u00e3o dos gestores. A lideran\u00e7a \u00e9 frequentemente a primeira camada da organiza\u00e7\u00e3o capaz de perceber mudan\u00e7as no comportamento de um profissional, mas nem sempre est\u00e1 preparada para reconhecer sinais de sofrimento ou conduzir uma conversa de acolhimento.<\/p>\n<p>\u201cO l\u00edder n\u00e3o precisa ser psic\u00f3logo, mas precisa saber cuidar das pessoas. O problema \u00e9 que muitos l\u00edderes foram preparados para entregar resultados, mas n\u00e3o necessariamente para cuidar das pessoas que precisam entregar esses resultados.\u201d<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o significa, segundo o especialista, transformar gestores em profissionais de sa\u00fade mental. O papel da lideran\u00e7a \u00e9 reconhecer mudan\u00e7as, ouvir sem julgamento, criar espa\u00e7o seguro para o di\u00e1logo e saber quando \u00e9 necess\u00e1rio encaminhar o profissional para ajuda especializada.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o tamb\u00e9m passa pela forma como as cobran\u00e7as s\u00e3o realizadas. Uma lideran\u00e7a pode precisar cobrar resultados, mas a maneira como isso acontece pode contribuir para um ambiente saud\u00e1vel ou gerar medo, inseguran\u00e7a e desgaste emocional.<\/p>\n<p>\u201cAinda vejo uma linha de pensamento de que, se o l\u00edder n\u00e3o teve a inten\u00e7\u00e3o de assediar moralmente, ent\u00e3o aquele comportamento n\u00e3o deveria ser considerado um problema. Mas precisamos entender que a aus\u00eancia de inten\u00e7\u00e3o n\u00e3o elimina necessariamente o impacto daquele comportamento. Uma cobran\u00e7a pode ser leg\u00edtima, mas a forma como ela \u00e9 feita pode gerar medo, inseguran\u00e7a ou desgaste emocional.\u201d<\/p>\n<p>Os n\u00fameros mostram que o tema n\u00e3o pode ser tratado como uma pauta secund\u00e1ria<\/p>\n<p>A dimens\u00e3o do problema tamb\u00e9m aparece nos dados da Previd\u00eancia Social. Segundo dados preliminares de 2025 divulgados pelo Minist\u00e9rio da Previd\u00eancia Social e destacados pela Fundacentro, foram concedidos 546.254 benef\u00edcios por transtornos mentais e comportamentais, alta de 15,66% em rela\u00e7\u00e3o aos 472.328 registrados em 2024.<\/p>\n<p>Os n\u00fameros n\u00e3o permitem afirmar que todos os casos tenham rela\u00e7\u00e3o com o trabalho. Ao contr\u00e1rio, a pr\u00f3pria Fundacentro chama aten\u00e7\u00e3o para a quest\u00e3o do reconhecimento do nexo entre adoecimento e atividade profissional. Ainda assim, o volume de benef\u00edcios refor\u00e7a a dimens\u00e3o da discuss\u00e3o sobre sa\u00fade mental no pa\u00eds.<\/p>\n<p>\u201cQuando olhamos para mais de 546 mil benef\u00edcios concedidos por transtornos mentais e comportamentais em um \u00fanico ano, fica dif\u00edcil tratar sa\u00fade emocional como uma pauta secund\u00e1ria de RH. N\u00e3o podemos afirmar que todos esses casos foram provocados pelo trabalho, mas os n\u00fameros mostram a dimens\u00e3o do problema e o impacto que ele pode representar para pessoas e organiza\u00e7\u00f5es.\u201d<\/p>\n<p>Setembro Amarelo n\u00e3o pode terminar em setembro<\/p>\n<p>\u00c9 nesse ponto que Vagner prop\u00f5e aproximar definitivamente a discuss\u00e3o da NR-1 com o Setembro Amarelo. Para ele, campanhas de conscientiza\u00e7\u00e3o s\u00e3o importantes, mas perdem for\u00e7a quando n\u00e3o s\u00e3o acompanhadas por mudan\u00e7as concretas no ambiente organizacional.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o podemos ensinar as pessoas a serem resilientes para suportar ambientes que precisam ser transformados.\u201d<\/p>\n<p>A reflex\u00e3o tamb\u00e9m vale para a forma como as empresas costumam abordar o tema. Incentivar terapia, atividade f\u00edsica, medita\u00e7\u00e3o, descanso e autocuidado podem ajudar, s\u00e3o iniciativas importantes e v\u00e1lidas, mas elas n\u00e3o substituem a responsabilidade da organiza\u00e7\u00e3o sobre as condi\u00e7\u00f5es de trabalho. Se o profissional retorna diariamente para um ambiente marcado por press\u00e3o excessiva, rela\u00e7\u00f5es profissionais desgastantes, falta de autonomia ou medo de se posicionar, a organiza\u00e7\u00e3o precisa olhar tamb\u00e9m para os fatores presentes nesse ambiente.<\/p>\n<p>Para Vagner, a nova NR-1 pode funcionar como um ponto de virada: em vez de representar apenas mais uma obriga\u00e7\u00e3o de compliance, pode estimular as empresas a revisarem a coer\u00eancia entre seus valores, suas pr\u00e1ticas de lideran\u00e7a e a experi\u00eancia real dos colaboradores.<\/p>\n<p>\u201cO grande desafio ser\u00e1 sair da cultura do discurso e entrar na cultura da pr\u00e1tica. A pergunta n\u00e3o deveria ser apenas \u2018qual \u00e9 a nossa cultura?\u2019, mas \u2018o que os nossos colaboradores realmente experimentam quando trabalham aqui?\u2019.\u201d<\/p>\n<p>E essa mudan\u00e7a n\u00e3o significa criar ambientes sem cobran\u00e7a, metas ou press\u00e3o por resultados, segundo o psic\u00f3logo: \u201cCuidar da sa\u00fade emocional n\u00e3o significa criar um ambiente sem cobran\u00e7a ou sem metas. Significa construir ambientes onde as pessoas possam ser cobradas por resultados sem serem desrespeitadas, onde exista espa\u00e7o para di\u00e1logo e onde a lideran\u00e7a consiga equilibrar performance com desenvolvimento humano.\u201d<\/p>\n<p>A proposta, portanto, \u00e9 discutir como transformar o Setembro Amarelo de uma campanha pontual em uma estrat\u00e9gia permanente de preven\u00e7\u00e3o, conectando sa\u00fade mental, lideran\u00e7a, cultura organizacional, seguran\u00e7a psicol\u00f3gica e gest\u00e3o de riscos psicossociais. \u201cA verdadeira preven\u00e7\u00e3o come\u00e7a quando a empresa cria um ambiente em que as pessoas se sintam seguras para pedir ajuda antes de chegarem ao limite.\u201d, finaliza Vagner.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Sobre Vagner Rocha<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Vagner Rocha \u00e9 psic\u00f3logo, mentor de carreira e especialista em desenvolvimento humano. Possui mais de 20 anos de experi\u00eancia em Recursos Humanos e trajet\u00f3ria em empresas multinacionais e de tecnologia, com atua\u00e7\u00e3o em projetos de desenvolvimento humano e organizacional em diferentes contextos. \u00c9 fundador da VR Mentoring, criada em 2022, onde desenvolve trabalhos de mentoria profissional, lideran\u00e7a, desenvolvimento e consultoria para organiza\u00e7\u00f5es.<\/strong><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Especialista defende que falar sobre sa\u00fade mental nas empresas exige olhar al\u00e9m do indiv\u00edduo e questionar que tipo de ambiente, cultura e lideran\u00e7a as organiza\u00e7\u00f5es est\u00e3o construindo. Vagner Rocha, psic\u00f3logo, mentor de carreira e especialista em desenvolvimento humano O Setembro Amarelo chega, em 2026, em um momento particularmente importante para as empresas brasileiras. 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